
Durante décadas, projetos de edifícios altos no Brasil dependeram de consultorias internacionais e de conhecimento técnico importado para decisões estruturais críticas. Agora, um novo movimento começa a reposicionar o país nesse cenário. Criada pelo Grupo FG, a Talls Solutions completa seu primeiro ano com foco em projetos de alta complexidade e atuação direta nos resultados dos empreendimentos.
Com sede em Balneário Camboriú, a empresa surgiu com o objetivo de aplicar a experiência acumulada em projetos de grande porte à tomada de decisão técnica e econômica.
A companhia já analisou mais de 1,5 milhão de metros quadrados de estruturas — o equivalente a cerca de 140 campos de futebol — e identificou mais de R$ 100 milhões em reduções de custos. A estratégia prioriza profundidade técnica e participação direta nas decisões dos projetos.
"A Talls foi estruturada para atuar no ponto em que engenharia, viabilidade executiva, leitura econômica e monitoramento passam a fazer parte da mesma decisão. Não se trata apenas de revisar projetos, mas de integrar essas etapas desde o início", afirma Stéphane Domeneghini, diretora executiva da Talls Solutions.
Segundo a executiva, a atuação contínua ao longo do ciclo dos empreendimentos permite decisões mais precisas. "Por estarmos presentes desde a concepção até o monitoramento de edifícios já entregues, conseguimos reunir dados reais sobre o comportamento de materiais, sistemas e soluções técnicas em edifícios altos brasileiros", explica.
Em empreendimentos de grande porte, revisões técnicas independentes e processos de engenharia de valor podem reduzir entre 5% e 15% do custo estrutural, segundo estudos da American Society of Civil Engineers (ASCE) e da SAVE International. Já nos projetos conduzidos pela Talls, essa otimização alcança patamares de até 35%, resultado de uma abordagem que integra engenharia, execução e viabilidade econômica desde as etapas iniciais, algo ainda pouco explorado pelo mercado tradicional.
No primeiro ano de operação, a empresa atuou em projetos que somam cerca de R$ 50 bilhões em VGV e iniciou o mapeamento de oportunidades internacionais. Segundo a executiva, os resultados estão relacionados à integração entre engenharia e viabilidade econômica.
A empresa afirma ter acesso a dados de desempenho ao longo de todo o ciclo dos empreendimentos. Por estar conectada ao Grupo FG, reúne informações que integram viabilidade financeira, projeto, execução e operação.
"A proposta é atuar com poucos projetos, com maior nível de aprofundamento técnico e impacto em custo, desempenho e segurança. Não buscamos volume, mas consistência técnica nas decisões", afirma Domeneghini.
A atuação envolve revisão técnica independente, estratégia estrutural, análises de desempenho ao vento e coordenação entre diferentes disciplinas de engenharia.
Um nicho específico
O mercado global de consultorias especializadas em arranha-céus é restrito. Segundo análise da própria Talls Solutions, há poucos players com atuação dedicada nesse segmento.
Para Jean Graciola, CEO do Grupo FG, o cenário começa a mudar. "O Brasil passa a desenvolver conhecimento próprio em engenharia de grande escala, com capacidade de dialogar com o mercado internacional", afirma.
A empresa também conta com a participação do engenheiro Fatih Yalniz, que atuou em projetos como 56 Leonard Street e 111 West 57th Street. Para ele, o avanço da engenharia brasileira abre espaço para maior colaboração global.
Engenharia aplicada
Segundo Domeneghini, a consultoria atua como "owner’s engineer" em projetos de alta complexidade, contribuindo para aumento de margens, redução de riscos e maior previsibilidade financeira. De acordo com a executiva, esse modelo tem atraído incorporadoras em diferentes regiões do país. No primeiro ano, a empresa participou de projetos em dez estados brasileiros e no Paraguai.
O plano é ampliar a atuação internacional mantendo o mesmo posicionamento. "Selecionamos projetos alinhados à nossa proposta de atuação técnica e impacto nos resultados", afirma.
Aplicação em escala urbana
Além dos projetos, a empresa estrutura uma frente voltada ao desenvolvimento urbano. A iniciativa busca aplicar a integração entre técnica, viabilidade e execução também na escala das cidades, conectando mobilidade, uso do solo e infraestrutura.
"Quando ampliamos a análise para a escala urbana, conseguimos decisões mais eficientes ao longo do tempo", afirma Domeneghini.
Fotos em frente ao One Tower, maior prédio residencial da América Latina (segundo o CTBUH) já entregue, desenvolvido por ela, disponíveis aqui. Crédito: Vinícius de Morais.
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