
A renda fixa virou um ímã para o dinheiro dos investidores em 2026. Entre janeiro e agosto, os fundos da categoria receberam cerca de R$ 138 bilhões líquidos, já descontados os resgates, aproximadamente 51% a mais que no mesmo período de 2025. Só em agosto entraram R$ 47,2 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
No Tesouro Direto, o investimento também bateu recorde: captaram cerca de R$ 40 bilhões no período, segundo o Ministério da Fazenda. A queda da taxa Selic não tornou o dinheiro barato: mesmo após cinco cortes, ela continua em 13,75% ao ano, um patamar ainda muito elevado. Isso mantém boa parte da renda fixa atraente. E há outro fator: as taxas de juros de prazos mais longos, negociadas pelo mercado, também continuam altas.
Essas taxas são definidas de acordo com a percepção de risco do investidor, que aumentou por causa do desequilíbrio das contas públicas. Déficits persistentes aumentam a necessidade de financiamento e tendem a elevar a dívida, piorando a percepção de risco e aumentando a taxa de juros do mercado. "Quanto maior a dúvida sobre a capacidade do governo de estabilizá-la, maior o retorno exigido pelos investidores", explica Otávio Fakhoury, especialista em renda fixa com experiência em mesas de operação de grandes bancos no Brasil e nos Estados Unidos.
É justamente desse cenário de risco maior que podem surgir oportunidades para quem tem dinheiro para investir.
Investimentos
Tesouro Direto:
No Tesouro Direto, praticamente metade da procura tem sido pelos títulos indexados à Selic. Em agosto, o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva receberam R$ 7 bilhões, o equivalente a 46,9% de todas as compras do programa. Segundo Fakhoury, para quem prefere ter o dinheiro investido disponibilizado todos os dias e não gosta de oscilação, o Tesouro Selic é uma opção adequada porque acompanha a taxa básica e tem resgate diário. "Enquanto a Selic permanecer elevada, sua remuneração também será alta", explica o especialista.
Para quem pode deixar o dinheiro aplicado por mais tempo, os títulos IPCA+ oferecem uma oportunidade diferente: garantir um juro real, acima da inflação, até o vencimento. O Tesouro IPCA+ 2032, com vencimento em 2032, foi um dos destaques do ano e chegou a ser o título mais procurado em junho, quando o retorno alcançou a taxa de inflação mais 8% de ganho ao ano. Na segunda semana de outubro, após uma forte queda dos juros futuros, as taxas oferecidas por esses títulos recuaram.
Ainda assim, o Tesouro IPCA+ 2032 continuava pagando a inflação medida pelo IPCA mais cerca de 6,5% a 7% ao ano. "Tem que avaliar bem o prazo de vencimento desses títulos, porque o resgate antecipado pode diminuir o ganho esperado. Em alguns casos, o investidor corre o risco até mesmo de receber menos do que investiu originalmente", alerta Fakhoury.
Fundos de renda fixa:
No primeiro semestre, R$ 70,3 bilhões entraram em fundos classificados pela Anbima como "duração baixa crédito livre". "Duração baixa" indica menor sensibilidade às mudanças dos juros; "crédito livre" permite que esse fundo invista parcela relevante em títulos de empresas e instituições financeiras. Fakhoury explica que esse investimento foi feito para quem busca menos oscilação e aceita algum risco de crédito em troca de remuneração adicional. Mas é preciso cautela, porque parte do dinheiro desses fundos é emprestada a empresas, e muitas delas também sofrem com o custo elevado dos financiamentos.
Até setembro, esses fundos acumulavam um retorno de 11,14% no ano, o maior ganho entre os fundos de investimento, segundo a Anbima. Mas um alerta: apesar da remuneração maior, o investidor tem que aceitar também mais risco de crédito.
Outro tipo de fundo que ganhou muito espaço em 2026 e tem tido bons rendimentos é o ETF de renda fixa. Esses fundos são negociados em Bolsa e acompanham índices formados por títulos públicos ou privados. Até o dia 21 de setembro, eles acumulavam ganhos de 7,03% no ano, de acordo com a Anbima.
Certificado de Depósito Bancário:
Outra alternativa são os investimentos ligados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que acompanha de perto a Selic. A Taxa DI está em 13,65% ao ano. Assim, um Certificado de Depósito Bancário (CDB) que pague 100% do CDI parte de uma referência bruta próxima desse nível; um CDB de 110% do CDI pode render perto de 15% ao ano, se a taxa permanecer estável.
Mas o percentual não é tudo. Prazo, liquidez e risco do emissor importam. Um CDB com liquidez diária pode pagar menos, mas mantém o dinheiro acessível. Outro, resgatável apenas no vencimento, pode oferecer taxa maior justamente porque prende os recursos por mais tempo.
Não existe um único investimento ideal. "Num cenário em que a renda fixa ainda oferece retornos elevados, a melhor aplicação não é necessariamente a que paga a maior taxa, mas a que combina rendimento, risco e prazo com o objetivo de quem investe", diz Fakhoury.
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