
No Dia das Mães de 2026, a falta de cuidadores para crianças pequenas pesa sobre o trabalho, a renda e a carreira das mães brasileiras. O Censo Escolar 2025 aponta que 41,8% das crianças de 0 a 3 anos tinham acesso à creche, ainda abaixo da meta de 50% para essa faixa etária. Quando a vaga não existe ou cobre apenas parte do dia, a família precisa se organizar para que o emprego continue sendo possível.
A jornada da educação infantil é, por lei, de quatro horas diárias no período parcial e de sete horas diárias no período integral, conforme a LDB. A jornada de trabalho CLT padrão é de oito horas diárias. "O intervalo entre o fim da creche e o fim do expediente é o momento em que as famílias mais nos procuram. Sem rede de apoio, alguém precisa buscar a criança nesse horário, e a contratação de uma babá vira uma opção concreta", afirma Cynthia Freitas, fundadora da Babá Certa, plataforma de busca de babás.
A renda familiar altera o quadro. Em 2024, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, seis em cada dez crianças pequenas de famílias de maior renda estavam em creche ou escola; entre as de menor renda, eram três em cada dez. A diferença de cobertura entre grupos de renda gera arranjos distintos: famílias de renda mais alta recorrem majoritariamente à contratação privada; as de renda mais baixa dependem mais de apoio informal, conforme o Anuário.
O reflexo disso no mercado de trabalho está na análise do FGV-IBRE, que cruzou microdados da pesquisa oficial de emprego: no quarto trimestre de 2023, 65,2% das mães estavam no mercado, contra 73,2% das mulheres sem filhos. Entre os pais, ter filho aumentava a participação. A diferença indica onde o custo do cuidado recai com mais frequência.
Quando a rede pública e a família não cobrem toda a jornada, a solução é improvisada, com ajuda da avó, vizinha, diarista, cuidadora, creche paga ou babá, informal ou com carteira assinada. A PNAD Contínua registrou 6 milhões de pessoas ocupadas em serviços domésticos em 2024, parte delas contratada exatamente para resolver esse problema.
E mesmo quem trabalha como cuidadora pode ter o mesmo problema, pois, em quase 100% dos casos, é feito por uma mulher, que também pode ser mãe. Para sair de casa e cumprir o expediente na casa contratante, a babá precisa, primeiro, resolver o próprio problema. E há um agravante na informalidade: boletim do DIEESE mostra que mais de três quartos das trabalhadoras domésticas no país seguem sem carteira assinada, o que significa menos proteção social e maior exposição a imprevistos.
Cynthia observa que as famílias recorrem à plataforma quando a rotina improvisada deixa de resolver — quando a vizinha pede férias, a avó adoece ou a amiga não pode mais ajudar. As famílias chegam à plataforma, diz ela, desconhecendo a lei, e descobrem que o custo vai além do salário acordado: encargos, transporte e folgas costumam representar quase um terço a mais na folha mensal, segundo o simulador de custo CLT. "Quando a creche fecha antes do expediente, a mãe não procura luxo; procura uma forma de continuar trabalhando", acrescenta. A dúvida mais comum antes da contratação, segundo ela, não é apenas o valor mensal: é montar uma rotina que proteja a criança, respeite a legislação, caiba no orçamento e não empurre a cuidadora para a informalidade.
A Política Nacional de Cuidados, sancionada em dezembro de 2024, reconhece formalmente o problema, mas a aplicação prática ainda depende de regulamentação e de financiamento. Os dados sobre cobertura de creche e participação feminina no mercado de trabalho indicam o tamanho do desafio.
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